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ASTROFILOSOFIA - UM DISCURSO SOBRE O TEMPO E OS INSTINTOS
A AstroFilosofia recoloca o homem no centro do universo, toma cada ser humano como centro do seu universo, ela é antropocêntrica, os planetas rodam à volta dele e são passíveis duma interpretação em função dele. O ser humano interpreta o seu céu de nascimento que é o seu mapa dos instintos e do tempo, o mapa que vai definir a estrutura da sua realidade, ou as características potenciais do seu espaço interior, esse espaço interior definido em termos de áreas, de modelos, de funções da consciência humana.

A AstroFilosofia traz novamente o céu como objecto filosófico, com o homem no centro desse céu. Ao colocar-se a antiga astrologia fora das universidades, abandonou-se também a reflexão filosófica sobre o céu, sobre o sentido do ser humano integrado no espaço cósmico. Temos essas reflexões filosóficas sobre o céu em Platão, em Aristóteles, em Kant. Não é por acaso que a obra, Teoria do Céu de Kant, é uma obra desprezada, porque a astrologia foi desprezada, perdeu-se uma filosofia sobre o céu, uma AstroFilosofia, e com isso perdeu-se também a possibilidade de o homem se interpretar num espaço maior do que a própria humanidade.

O homem, através do discurso sobre o céu, projecta-se para lá da sua humanidade, constrói uma dimensão sobre-humana, uma dimensão que projecta o seu pensamento no universo. Nesse sentido estamos a criar um mundo verdadeiramente humano, um mundo que se torna mais humano. Júpiter ou Saturno deixam de ser apenas corpos celestes sem sentido, passam a estar carregados de significação humana, passam a estar carregados de sentidos, passam eles próprios a entrar numa dialéctica homem-planeta, homem-espaço, esse espaço que permite a existência física do homem, é recriado e reinventado, o ser humano projecta-se nele e recebe-o depois como destino. Traz essa realidade cósmica à palavra humana, à palavra com uma significação humana, e neste sentido descobre novas direcções para si próprio.

Através da correlação com o céu, com o Mapa dos Instintos (que corresponde à configuração planetária vista dum ponto na Terra no momento do primeiro choro) e do Mapa do Tempo (que se refere à relação que os planetas em movimento vão estabelecendo com essa configuração do primeiro choro) o ser humano ganha uma nova noção da sua realidade interior, da estrutura dos seus instintos e da natureza e do tempo que está a viver: as emoções, os pensamentos e as acções passam a ter uma realidade, uma estrutura, uma geometria, uma lógica matemática e temporal, porque relacionada a fenómenos cósmicos objectivos. Os seus instintos e o seu tempo, manifestados em emoções, pensamentos e acções, passam a não ser apenas realidades psicológicas para terem os planetas e os seus movimentos como referências físicas observáveis. Neste sentido criamos um discurso sobre os instintos e o tempo, sobre a sua vivência em relação com o céu, sobre a sua capacidade de se reinventar, e sobre a sua capacidade de viver num cosmos humano.

A AstroFilosofia vem resgatar o céu como motivo reflexão, inspiração e encantamento, vem recuperar o sentido de interpenetração entre todas as coisas, a ideia grega de simpatia universal. Com isto não me refiro ao domínio do transcendente, é importante distinguir esta abordagem filosófica daquela outra que cola ao homem realidades transcendentes de ordem sobrenatural, nomeadamente de ordem religiosa. Uma coisa são as realidades que o homem constrói e inventa como co-criador do cosmos, sejam elas de natureza material ou conceptual, outra coisa é o domínio das fantasias religiosas que se afirmam como realidades absolutas.

Creio que a religião por si própria não é capaz de fundar uma ética que eleve o ser humano, que o torne efectivamente mais livre e feliz. Livre, principalmente, dos seus instintos primitivos de posse e de poder, dos seus instintos de guerra. Essa elevação deverá ser encontrada nas práticas filosóficas, numa ética que consiga harmonizar as emoções com os pensamentos e as acções. Para alcançarmos essa harmonia talvez seja bom procurar inspiração na simpatia universal de que falavam os estóicos, agora já não entendida como uma simpatia fatalista, mas como possibilidade de reinventar o espaço cósmico e de reinventar o ser humano através dessa co-criação conceptual do cosmos.

Cosmos inventado e encantado, cosmos no qual cada sujeito vive como sendo o seu centro. Este é um cosmos tornado humano, penetrado por sentidos humanos, por realidades humanas. Ainda que não possa justificar dum ponto de vista experimental que isto corresponde a uma realidade materialmente demonstrável, mostro que é possível construir uma teoria sobre o céu, sobre a nossa célula do universo, somos parte deste átomo do universo, somos os seus electrões que por aqui nos movemos. Neste sentido não podemos esperar ser independentes desse átomo do universo que é o nosso sistema solar. A AstroFilosofia pretende retomar uma teoria sobre o céu e colocar o homem no centro do seu próprio universo.

Muitas vezes produzimos pelas nossas emoções, palavras e acções exactamente aquilo que queremos evitar. Isto acontece porque não interpretamos correctamente as situações e o tempo que estamos a viver. É como correr para o abismo julgando fugir dele. A hermenêutica é a cura para este problema, ela é a disciplina mais importante para a AstroFilosofia, porque identifica o sentido profundo das Emoções, dos Pensamentos e das Acções. Procura estabelecer entre estes uma harmonia, um triângulo equilátero.

De arte esotérica a discurso sobre os instintos e o tempo, dependente da linguagem e de sistemas de significados. Mais do que aproximar o céu da terra a astrofilosofia procura aproximá-lo da linguagem e dos processos neurobiológicos. Construindo uma matemática dos instintos e do tempo. Vejo a AstroFilosofia como algo muito mais próximo da biologia, especialmente da neurobiologia, da biologia das emoções e das tendências naturais, do que da astronomia. O Paraíso é o mito da felicidade fora do tempo, mas a vida é inseparável do tempo e dos instintos. O desejo e o prazer são a força da vida. Aquilo a que chamamos felicidade é uma mistificação do equilíbrio biológico, do prazer e do bem-estar físico e psicológico. As concepções míticas e religiosas da felicidade contribuem de forma medíocre para uma melhoria efectiva do bem-estar da humanidade.

Podemos admitir a hipótese de que a estrutura do nosso sistema solar, com os seus planetas e os seus movimentos, tenha uma relação orgânica da mente humana, com os seus instintos e o seu tempo biológico. Numa concepção do homem em que este faz parte do mundo, em que este é produto do meio em que existe, é uma hipótese a considerar que a organização desse meio se manifeste na realidade desse ser humano, na sua estrutura. Independentemente desta relação se poder vir a demonstrar objectivamente, a astrologia conseguiu articular um sistema interpretativo, ao longo dos séculos, que estabelece correlações úteis entre a mente humana e esse sistema solar.

Interessam-me mais os filósofos que a Filosofia, quer dizer, a actividade de reflectir livremente e os seus diamantes do que os seus sistemas filosóficos. A astrofilosofia é uma filosofia, um sistema de conceitos e teorias sobre os instintos e o tempo, que toma por referência os planetas relativamente a um dado lugar na Terra. A AstroFilosofia é topocêntrica, coloca cada sujeito no centro do cosmos. O sentido do cosmos é equacionado a partir duma perspectiva individual e subjectiva.

Isto significa uma outra concepção sobre o homem que passa a ser definido em termos de instintos e de tempo, as partes integrantes da sua identidade. O conceito de pessoa adquire outro sentido: aquilo que alguém é não pode ser separado nem compreendido independentemente da dinâmica interna dos seus instintos, da natureza do tempo e dos modos como estes se manifestam em emoções, pensamentos e acções.

A AstroFilosofia é um discurso sobre a identidade, os instintos e o tempo, que tem por referência o céu, que estabelece correlações entre a posição e o movimento dos elementos principais do sistema solar, relativamente à Terra, e os tipos de manifestações das coisas que decorrem daquilo que eles são, das suas tendências espontâneas e da sua natureza sucessiva. A AstroFilosofia é um sistema interpretativo e um método de trazer à palavra a dinâmica da identidade, dos instintos e do tempo.

O discurso astrofilosófico recupera e integra elementos que fazem parte da tradição astrológica que se iniciou com a religião astral babilónica e foi posteriormente sistematizada pelo pensamento grego, em particular, pelas concepções de Heraclito, Pitágoras, Empédocles, Platão, Aristóteles, pelos estóicos com a doutrina da simpatia universal, e Ptolomeu.

A identidade, os instintos e o desenvolvimento temporal dos seres humanos são aspectos particulares dos modos como as coisas se manifestam no nosso sistema solar e, em concreto, na Terra. Os princípios subjacentes à identidade, aos instintos e ao tempo dos seres humanos manifestam-se também nas coisas em geral ou, para ser mais claro e evitar pressupor realidades absolutas, nos modos como os seres humanos percepcionam, interpretam e atribuem sentido a essas coisas.

Cada um de nós tem uma identidade, uma consciência de si próprio, um sentimento de ser único e diferente dos outros. Sentimos que estamos delimitados pela nossa identidade e pela consciência que temos de nós próprios. Não somos capazes de nos sentirmos outros, a não ser em casos que são habitualmente considerados pela psiquiatria perturbações mentais graves. É certo que houve e há culturas que procuram deliberadamente esse tipo de estados mentais em rituais, em festas ou até em processos de suposto desenvolvimento espiritual. Esses estados podem ser potencialmente muito criativos mas também muito perigosos, levando a abrir portas que nunca mais se voltam a fechar, a entrar em caminhos de onde não se volta a sair.

Esta identidade ou consciência de si tem, no meu entender, sido interpretada de forma radical, mítica ou pelo menos metafísica, como se os seres humanos, por terem consciência de si, das suas emoções, dos seus pensamentos, dos seus actos e da capacidade de pensar e agir livremente, fossem livres de determinações que condicionassem de forma poderosa a sua vontade e os seus pensamentos. Isto deu origem, por exemplo, à concepção metafísica do livre arbítrio que, supostamente, permitiria aos homens decidir como bem entendessem, sem constrangimentos. Esta ideia teve como consequência maior colocar as emoções, os pensamentos e as acções fora do domínio da vida e levou à construção duma moral pouco eficaz que, no limite, impediu e impede um efectivo aperfeiçoamento ético, o desenvolvimento duma melhor filosofia de vida, de mais disciplina mental, auto domínio emocional e eficácia na acção. Falo de um aperfeiçoamento que parta de um conhecimento útil das forças que estão presentes no interior dum indivíduo, que têm uma dada organização e um dinamismo interno que condicionam as emoções, os pensamentos e as acções duma forma muito marcante, e que há que a aprender a dominar, caso contrário será incorrecto falar de efectiva liberdade.

Quer dizer, conhecer os nossos instintos, a forma como estão organizados e as suas tendências naturais de manifestação, é uma condição indispensável da liberdade. Uma liberdade que não parta desse conhecimento é fantasista. Como esse conhecimento, duma forma geral, não existe ou é raro, quando se diz que o homem é livre está-se no domínio dos mitos.

É habitual considerar-se que, ao contrário dos animais, o homem não tem instinto. Este assunto do instinto é mais complexo do que a ideia de um programa prévio que determina o comportamento de forma simples; ou seja, parece que mesmo os animais podem aprender e modificar os seus instintos até um certo limite.

A AstroFilosofia, tal como é aqui concebida, vem introduzir o conceito de instintos humanos. Não de instinto no sentido de programa genético previamente determinado, acabado e estático, mas de forças interiores estruturadas duma dada forma, organizadas entre si e possuindo uma dinâmica interna que se manifesta no tempo.

A identidade tem uma natureza ou manifestação temporal. Também os instintos têm uma natureza e manifestação temporal. E quanto ao tempo? Terá uma identidade e uma natureza ou manifestação instintual?

A identidade, os instintos e o tempo manifestam-se em emoções, pensamentos e acções, nos níveis individual, colectivo e universal.

A moral tradicional, apoiada na biologia e nos instintos primários, valoriza como virtudes determinadas interacções dos instintos. Por exemplo, alguém que tenha no seu mapa de nascimento uma conjunção de Vénus (amor) com Saturno (estabilidade e limitação) sente as relações afectivas como um dever, é naturalmente não expansivo e “fiel”. Considerar esta particular dinâmica dos instintos como uma virtude é o mesmo que considerar um gato virtuoso… por ser um gato. Inversamente, quem tiver Vénus (amor) em relação com Urano (novidade e independência) procura relações originais e criativas, independentes, aventuras amorosas, situações inesperadas. Considerar essa tendência um vício moral é também como considerar um gato perverso e imoral… por ser um gato. Enquanto a primeira relação dos instintos é valorizada e o sujeito que a tem é valorizado como “fiel”, o segundo é desvalorizado como infiel e traidor. Ambos manifestam apenas uma dada organização dos instintos da qual não são responsáveis e que têm dificuldade em alterar essa sua organização particular dos instintos. Assim, a questão ética que se coloca é se, pelas suas acções, causam ou não um mal directo a alguém. Também falta

A AstroFilosofia é uma filosofia sobre os astros, um sistema que tem um fim interpretativo. É uma filosofia, uma construção humana, racional, sistemática, que tem ela própria uma coerência interna mas que não tem necessariamente um objecto exterior verificável. Não tem por demonstrado que exista de facto uma relação entre a posição e os movimentos dos planetas e as realidades humanas. Ao contrário, antes afirma que entre uns e outros não existe tal relação. Assume que não sabe, fica numa posição de cepticismo teórico, mas de utilitarismo operativo, de pragmatismo intersubjectivo.

AstroFilosofia, Biologia e virtude

A AstroFilosofia ao identificar a dinâmica dos instintos e do tempo, coloca a questões que obrigam a repensar a noção de virtude. Havendo três instintos fundamentais ligados à emoção, ao pensamento e à acção, as virtudes básicas deverão também ser três. Vamos pressupor que são a bondade, a inteligência e a vontade.

Em termos de aperfeiçoamento moral há pouca vantagem em raciocinar em termos de culpa e em partir do princípio que existe espontaneamente um livre arbítrio humano, há mais vantagem em pensar que o ser humano é condicionado por factores de ordem biológica, de ordem social e de ordem bioquímica, que condicionam essa sua possibilidade de escolher. A liberdade, a capacidade de escolher e de agir bem é algo que tem que ser cultivado, e tem que se respeitar os instintos de onde parte a pessoa. A AstroFilosofia apresenta um esquema de interpretação dos instintos humanos, no sentido de tendências naturais. O esquema que apresento considera que os instintos são, originalmente, três, tendo depois diversos níveis de manifestação. A AstroFilosofia estabelece um sistema que mostra de que modo esses instintos se expressam naturalmente e de que forma interagem entre si, de forma mais tensa ou de forma mais harmoniosa. Quando esses instintos interagem de forma tensa, isso traduz-se naquilo que a moral tradicional chama defeitos ou vícios, dando-lhes uma carga moral negativa, considerando-os maus, e que existe culpa da pessoa que manifesta esses instintos dessa forma desarmoniosa. A moral tradicional não é capaz de identificar esses problemas como algo que não depende da própria pessoa e para o qual há que tentar encontrar situações objectivas que escapam a uma noção de moralidade.

Concretizando alguém nasceu com o instinto emoção numa interacção tensa com o instinto da acção. Que é que isto produz? Tensão interior, agressividade, violência. A questão é, esta agressividade é natural à pessoa, é algo que ocorre espontaneamente e que não é capaz de controlar, só a educação a poderá ajudar. Se não compreendermos os instintos que estão em jogo não seremos capazes de intervir com eficácia. Vamos ter tendência a julgar a criança que é hiperactiva, que não é capaz de controlar as suas emoções e as suas acções, como má. Quando ela apenas está a expressar instintos que têm uma origem química, biológica, congénita, hereditária, ou se quisermos, cósmica, dado que somos expressão, também, do cosmos onde se criaram as condições para a nossa existência. Onde sugiram as causas que nos produziram.

Não podemos pensar que somos independentes das causas cósmicas que permitiram o nosso aparecimento e desenvolvimento. Não considerar que existem condições de ordem cósmica que afectam o desenvolvimento individual, decorre duma concepção fantasista que imagina que o homem foi construído por Deus a partir do nada, e foi colocado naquele espaço, como se nada tivesse a ver com os planetas, com o sistema solar e com as leis que o determinam. Se tudo no nosso sistema solar parece ser traduzível matematicamente, é consequente supor que mesmo na acção aparentemente livre dos seres humanos exista algo traduzível em termos matemáticos.

Podemos conceber que a consciência ou o sentido de si próprio, representado pelo Sol, se manifesta em três instintos básicos: emoção, pensamento, acção.

Por sua vez, estes instintos têm três níveis de manifestação:

1. Pessoal, representado pela Lua (emoção - Eros), Mercúrio (pensamento - Logos) e Marte (acção - Praxis).

2. Social, representado por Vénus (emoção estética), Júpiter (pensamento sistemático), Saturno (acção construtiva)

3. Universal, representado por Neptuno (princípio de atracção, ligação e sensibilidade - Eros), Urano (princípio de inteligibilidade - Logos), Plutão (princípio de transformação e renovação - Praxis).

Ao colocar esta interpretação do céu no domínio da filosofia, como sistema de interpretação de realidades humanas, um modelo, é também um sistema de orientação e de previsão, constituindo-se também como uma teoria sobre os instintos humanos e sobre a sua manifestação e o seu desenvolvimento ao longo do tempo. Uma teoria sobre os instintos e o tempo humano.

Isto é um acrescento porque abre uma nova área conceptual, dentro do sistema de interpretação e previsão, cria também uma teoria particular que procura compreender melhor o ser humano concreto, definir o que ele é, constituir um mapa dos recursos humanos e nesse sentido ser um instrumento de aperfeiçoamento humano, já não visa apenas orientar e prever, visa também conhecer e aperfeiçoar uma diálogo útil com uma ética humana que toma em linha de conta o modo como os instintos humanos estão organizados.

Nesse sentido coloca-se em causa a ideia de chamar virtudes e defeitos a traços que são apenas modos de ser, que são manifestações próprias dos princípios que regulam o nosso universo. No limite diríamos que todas as realidades humanas que podem acontecer vão acontecer. O modelo da AstroFilosofia permite esclarecer antecipadamente o tipo das chamadas imoralidades ou defeitos morais. Assim a AstroFilosofia, ao ter uma definição dos instintos humanos, de como estes se articulam entre si e como existem desde o momento do nascimento, passa-se a ter um instrumento basilar da educação, duma educação que ultrapassa a que não basta o moralismo educativo. A teoria dos instintos e do tempo introduz a possibilidade de uma ética mais consciente.

A teoria dos instintos obriga a pensar a ética, porque a educação tal como existe parece pressupor que o indivíduo é bom ou mau por ter decidido por ele, como se fosse uma tábua rasa. A teoria dos instintos e do tempo mostra que não é uma tábua rasa, logo a educação para ser eficaz e adequada tem que compreender com que material está a lidar, compreender quais são as determinações duma criança o modo como os seus instintos estão organizados, os seus impulsos naturais. Assim a educação pode dirigir-se especificamente àquele indivíduo e não a alguém indefinido. Tem que se verificar quais são os métodos mais eficazes para lidar com alguém que, por exemplo, tem Neptuno em tensão com a Lua, Vénus em fusão com Saturno. Temos que compreender estas manifestações dos instintos, perceber como a sua interacção produz determinadas situações emocionais, mentais e materiais, e temos que tentar descobrir para cada um desses problemas particulares quais são as formas mais correctas de intervenção, dentro dum modelo matemático, geométrico, biológico e temporal .

ASTROFILOSOFIA VERSUS TERAPIA CENTRADA NO PASSADO

A abordagem das psicoterapias às experiências difíceis das pessoas está influenciada pela perspectiva psicanalítica, que as considera como problemas do passado, traumas do desenvolvimento, como se a normalidade tivesse sido perturbada e fosse agora necessário repará-la.

A AstroFilosofia tem uma noção diferente de normalidade. O seu sistema de significados - herdado da filosofia e da astrologia gregas e renovado na minha obra Astrologia & Filosofia - descreve situações humanas, formas possíveis de manifestação das realidades humanas. Ainda que as pessoas tendam a perguntar “Isso é bom ou é mau?”, numa lógica de positivo e negativo, os elementos astrológicos descrevem e trazem à palavra as possibilidades combinatórias das realidades. É um jogo das possibilidades humanas, ou do mundo como é visto pelos seres humanos.

Por exemplo, é vulgar pensar-se que o arquétipo simbólico do Signo do Escorpião é mau porque remete para um animal perigoso. Do ponto de vista da AstroFilosofia é apenas uma forma de expressão de intensidade emocional, vivências profundas, memórias marcantes, instinto de sobrevivência. O arquétipo simbólico seguinte, o Sagitário, é normalmente considerado positivo por representar o princípio da expansão pessoal, o estrangeiro, os ideais, a filosofia, a exploração de novas possibilidades. Posso admitir que este segundo conjunto de significados é em geral mais agradável, mas o equilíbrio e a harmonia dos seres humanos e das coisas não se faz só com as coisas que julgamos boas. Na perspectiva de Heraclito, a ordem e a harmonia do mundo é resultado da luta dos contrários, estes não são bons nem maus, são apenas modos de ser da nossa realidade.

Esta lógica do “bom e do mau”, que manifesta a tendência natural de funcionamento da nossa mente primitiva para desejar tudo o que favorece a sobrevivência e evitar o que a coloca em perigo, está também subjacente às abordagens psicológicas e psicanalíticas. Em termos práticos isso tem como resultado trazer um peso negativo acrescentado às experiências humanas: sempre que verbalizo algo como “mau” essa coisa tende a tornar-se negativa para a minha vida. A forma como trazemos as coisas à palavra vai determinar em grande medida a forma como elas nos afectam.

É certo que a própria pessoa sente determinadas situações como más, por isso procura a ajuda dum psicólogo, mas há a interpretação alternativa de considerar essas experiências apenas como parte do processo de manifestação duma pessoa, dos seus instintos e do modo como estão organizados, assim como da manifestação do tempo pessoal, da sua natureza específica num dado momento. As experiências que tendemos a denominar como boas ou más são, do ponto de vista factual e fenomenológico, manifestações da estrutura dos instintos e da ordem temporal dum ser humano. A interpretação que acrescentamos aos factos vai determinar a sua realidade subjectiva.

O sentimento de tristeza torna-se menos pesado se o pudermos caracterizar e descrever, deixa de ser vivido com tanta carga emocional para poder ser também processado pelo pensamento e, depois, pela acção. Ao saber de que modo se está triste cria-se a possibilidade de agir para melhorar essa tristeza. Aquilo que para uma pessoa é vivido como tristeza pode ser, em termos astrológicos, uma conjunção de Saturno com a Lua no mapa astral de nascimento ou uma passagem de Saturno pela Lua. No primeiro caso, isso refere-se à organização interna dos instintos duma pessoa, no segundo caso, tem a ver com uma fase temporal. Em ambos os casos, a situação pode ser descrita e analisada em termos de factos ou manifestações humanas e não apenas como uma crise psicológica porque algo está mal.

Na perspectiva da AstroFilosofia o passado, o presente e o futuro são cíclicos, não há uma concepção linear do tempo, nem a ideia de que o passado determina necessariamente o presente e o futuro. Há antes uma manifestação dos instintos de acordo com a sua dinâmica interna e com a natureza do tempo num dado período. O trauma do passado trazido para o presente corresponde a uma fixação narrativa no tempo em que se está sempre a repetir a mesma história.

Ver o passado como causa do presente corresponde a inventar uma história, a criar uma narrativa e a re-vivê-la. O problema relaciona-se com a tendência da memória para criar linhas narrativas, a procurar causas e sentidos para aquilo que é o acontecer dos instintos e do tempo.

A abordagem da AstroFilosofia naturaliza e descreve em termos matemáticos e geométricos os nossos instintos e a natureza do nosso tempo. Traz o futuro ao presente, permite ver o futuro como uma realidade sobre a qual se pode intervir desde já. Vê o passado como uma série de manifestações combinatórias de realidades humanas e não como causa do nosso estado actual, que é sempre novo e renovável.

2.1. Éticas deontológicas versus co-criação do universo e do futuro

As éticas deontológicas têm na sua base um ideal de bem absoluto e de dever, em última análise fundam-se no mito da perda do paraíso. Não aceitam as realidades humanas como co-criação do universo. Não aceitam desenvolver o pensamento e a acção para satisfazerem os desejos e obterem prazer. O pensamento e a acção deveriam estar ao serviço das emoções, do desejo de prazer no tempo, da criatividade, da ecologia humana e do desenvolvimento da consciência. A moral deontológica procura uma solução para as necessidades humanas fora do tempo, no paraíso metafísico, na pretensa realidade absoluta. O cristianismo e a ciência partilham este desejo de absoluto: um no paraíso, em deuses e na salvação, a outra na verdade científica absoluta e no poder tecnológico. Ambos buscam alcançar uma realidade absoluta em vez de aceitarem a condição temporal de co-criadores do cosmos.

A "inteligência universal", aquilo a que os gregos chamavam o Logos, serve-se do ser humano para continuar a reinventar-se. Quando Rodrigo fez o seu concerto de Aranjuez estava a ser “usado” pelo cosmos para trazer à realidade potencialidades que existem nesse cosmos. Estava a materializar a música das esferas no tempo e no espaço, nos instintos criativos. Os nossos instintos são afinal instintos do cosmos, a nossa função é torná-los mais humanos. É submeter a vida à AstroFilosofia.

A terapia centrada no passado supõe a negação de colocar a inteligência e a acção ao serviço da satisfação do desejo e dos instintos no tempo. Tanto a psicanálise como o cristianismo são modelos interpretativos do homem e do mundo que podem ser e foram de alguma utilidade na organização de sociedades rudes e de sujeitos fracturados, mas são também formas de demissão da co-criação do cosmos, demissão da tarefa de forçar a vida a ter mais sentido humano, ao invés dum sentido paradisíaco, sobrenatural, ou então científico-tecnológico e consumista. O que nos salva não é o retorno ao passado, ao paraíso intra-uterino que o modelo das sessões psicanalíticas querem reproduzir, nem a promessa dum paraíso divino futuro que daria sentido à vida humana. O que nos pode salvar não é a metafísica mas sim o prazer enquanto há vida, o desporto, a arte, a literatura, a busca pelo saber e pela sabedoria, a formação filosófica e a construção da cosmopólis. Querer reparar o passado é afinal uma forma de não olhar para o presente e de não construir o futuro.

RETORNO À FILOSOFIA COMO SABEDORIA DE VIDA

“O homem bom é aquele que conhece o bem”. É este o princípio fundamental da concepção de Sócrates sobre o homem virtuoso, aquele que não deixa nunca de praticar o bem porque o conhece. Esta perspectiva ficou conhecida na história da filosofia como “intelectualismo moral”. O argumento habitual contra esta concepção é que alguém pode saber o que é o bem, e o que deveria fazer, mas optar por fazer o mal, ou seja, não basta o aspecto intelectual, é necessário juntar a isso a vontade e a acção.

Como é que Sócrates, consensualmente um dos maiores filósofos da humanidade, não viu uma coisa tão simples? Certamente que terá visto, o que acontece é que ele tinha uma concepção de filosofia diferente da actual. Este “saber o que é o bem” não é uma mera questão intelectual, porque não há verdadeiro saber que não ligue a teoria com a prática. Aquele que sabe o que é o bem mas não o faz não chegou ainda a um conhecimento efectivo sobre esse bem, não juntou a teoria com a prática. Para Sócrates a filosofia decorre naturalmente da vida: ser filósofo é viver a filosofia, é um hábito quotidiano em que a teoria e a prática não estão separadas. Não estamos aqui perante uma ética formal, mas antes uma ética como experiência de vida.

A tradição socrática da filosofia como virtude, corresponde a uma concepção de filosofia em que a teoria e a prática eram inseparáveis. Filosofar não era separável de ter uma vida filosófica. Não existia a noção de que o pensamento e a acção fossem coisas independentes.

Para Sócrates a ética formal e a ética vivida são coisas inseparáveis porque nele não existe ainda a ideia de que a filosofia possa ser uma ocupação puramente intelectual, independente de vida prática. Tal distinção existe em Kant e em John Stuart Mill: o primeiro defende que única coisa verdadeiramente moral é uma boa vontade, enquanto o segundo entende, numa perspectiva pragmática e utilitarista, que é necessário observar cuidadosamente os resultados das nossas acções para ver se elas produziram mais bem do que mal. Retomando estas concepções, digo que uma boa vontade é um bom ponto de partida moral mas é um mau ponto de chegada. É preciso ir mais longe, compreender de que modo as nossas acções são determinadas pelos nossos instintos e pelo tempo.

As boas construções conceptuais são de utilidade universal. A filosofia astrológica apresenta um sistema interpretativo utilitário, tendo por referência a organização do sistema solar, para reflectir sobre os instintos e o tempo que organizam as nossas realidades, sem as quais um efectivo aperfeiçoamento ético é impossível. Com a AstroFilosofia procuro voltar a unir a reflexão filosófica com a sabedoria de vida, orientar os instintos e prever o tempo humano. Neste sentido, a AstroFilosofia, através duma filosofia de vida congruente, pretende alcançar dois objectivos fundamentais: (1) libertar o céu das crenças sobrenaturais e metafísicas, da moral opressora que confunde certos instintos com virtudes; (2) libertar a filosofia ocidental do estigma de saber abstracto, desligado da vida e do desenvolvimento dos seres humanos. Sem o Logos universal de que falavam os gregos, trazendo luz e direcção à vida, não se constrói um universo mais humano, ficamos agarrados às crenças nos deuses, aos seus mandamentos primitivos e à promessa de salvação num céu ficcional.

Creio que a AstroFilosofia pode fazer o renascimento da filosofia e da interpretação do céu, abrindo novas possibilidades para a construção duma felicidade audaz, liberta do sobrenatural e da opressão dos três instintos primitivos fundamentais: o medo (Lua), a astúcia (Mercúrio) e guerra (Marte). Em oposição, é preciso desenvolver as três virtudes fundamentais: a empatia emocional, a inteligência do pensamento e a renovação das acções. O século XXI continua a ser dominado por aqueles três instintos primitivos, e o resultado é um mundo desumanizado. A responsabilidade por este estado de coisas é em grande parte dos políticos, que promovem o medo e manipulam a informação e o pensamento para prosseguirem as suas guerras pelo poder. A AstroFilosofia Política pode vir a dar um contributo importante para mudar o esvaziamento do discurso político, a sua profusão de ideias minúsculas, sem uma visão de conjunto projectada no tempo.

As nossas tradições religiosas, metafísicas e sobrenaturais, levam-nos a acreditar que estamos à parte do mundo, que somos exteriores ao mundo. Essa tradição anti-ecológica, anti-holística, foi incorporada pela ciência moderna na sua visão mecanicista e materialista, assim como na sua própria mitologia da verdade única. A epistemologia do século XX lançou por terra a crença num saber científico absoluto, mas esta continua a ser dominante. A tendência para pensar por opostos (os bons e os maus, o verdadeiro e o falso) é uma tentação constante do pensamento porque nos dá esquemas seguros e certezas aparentes. Neste sentido a ciência veio em grande medida substituir-se à religião e tomar o lugar do pensamento da verdade única.

Numa tradição sobrenatural, em particular nas tradições monoteístas, em que o mundo é criado pelos deuses num acto puro de vontade, sendo depois criado o homem a partir do nada para o colocar nesse mundo, é compreensível que se desenvolva uma visão em que o homem aparece como algo que não é do mundo, é antes dos deuses. A tradição cristã, em particular, entende a realidade humana como exterior ao mundo, a própria realidade corpórea e mundana do ser humano é desvalorizada porque apenas importa a salvação da alma.

Inversamente, numa lógica em que o homem é do mundo, não será de pensar que só existimos devido às condições existentes no nosso planeta e no nosso sistema solar? Que somos resultado dessas condições e que elas se manifestam em nós em diversos níveis, tanto nos mais directamente perceptíveis como noutros mais subtis? Não será de voltar a pensar na tradição grega da harmonia do cosmos, na harmonia das esferas celestes, no Logos?

Não serão os movimentos dos planetas no nosso sistema solar, matematicamente rigorosos, uma das manifestações dos princípios organizadores do nosso espaço e do nosso tempo cósmicos? Não creio que seja possível separar a realidade duma coisa da sua manifestação no tempo. E como se pode conceber que esses princípios organizadores do nosso sistema solar, esses movimentos matematicamente rigorosos, sendo o homem um produto do mundo, não têm algum tipo de manifestação nos seres humanos?

Porque há-de ser tão problemático para tantos homens de ciência que várias civilizações tenham construído um sistema de referências (convencionais ou não, é indiferente desde que tenham utilidade) para traduzir em termos humanos as posições e os movimentos planetários? Quando se faz uma hermenêutica dessa problemática, verifica-se que ela tem origem em cientistas acríticos que tomam o método científico, um mero instrumento de investigação, no critério último para determinar “a realidade”. Se através do discurso dito astrológico fizermos interpretações e correlações significativas, úteis, com os planetas e os seus movimentos que importa se são científicas, projectadas nos céus ou sonhadas?

No mestrado que fiz em Inglaterra, em “Cultural Astronomy and Astrology”, a dissertação teve por objecto a análise dos pressupostos das objecções à astrologia. Aí realizei algo a que se pode chamar “Psicanálise cultural” e que em termos filosóficos se denomina hermenêutica. Tratou-se de elucidar o não-dito das objecções à astrologia, aquilo que está por detrás desses ataques, quais os pré-conceitos.

As razões são várias e complexas – vou aprofundar esse assunto na minha tese de doutoramento sobre Filosofia da Linguagem, Hermenêutica e Astrologia Grega – mas creio terem uma raiz comum: a tradição judaico-cristã, e depois islâmica, do pensamento único, do Deus único, da verdade única, da intolerância perante outros modos de pensar, perante outros deuses, outras crenças, outros ideais de civilização. Num dado momento, uma certa concepção de ciência – de facto má ciência – assumiu essa função teológica da verdade única, do pensamento monista. À afirmação bíblica do “não terás outros deuses perante mim, porque eu sou o deus único", veio substituir-se o paradigma da ciência moderna que entende que um conhecimento só é válido se está de acordo com a metodologia científica. Acontece que a metodologia científica é apenas um dos muitos meios que o ser humano tem para conhecer e para construir as realidades.

Mesmo que as práticas astrológicas que conhecemos actualmente fossem refutadas conclusivamente, provavelmente outras se desenvolveriam, novos sistemas de referências relacionados com os planetas e o céu, e provavelmente estes continuariam a funcionar como uma espécie de matriz que ajuda a mediar a nossa relação com o cosmos . A questão é que nós não vivemos no sistema solar apenas como eventos astronómicos, ao contrário, desenvolvemos civilização com base na linguagem, produzimos significados e valores, temos referências históricas e sociais. É simples compreender que os planetas não são apenas realidades físicas ou astronómicas mas também, e fundamentalmente, entidades culturais, e neste sentido entramos no domínio da astrologia e das inumeráveis formas que esta assumiu na história das civilizações. A AstroFilosofia aparece como um método sofisticado de intervenção no processo histórico, de antecipação e manipulação do futuro e de reinterpretação da ordem social, tendo subjacente uma concepção cíclica do tempo e a ideia da existência duma inteligibilidade universal.

Quando em certos meios culturais se critica a falta de rigor científico dos aspectos técnicos da astrologia, pode estar a esquecer-se o ponto mais importante: relativamente a um sistema interpretativo que procura atribuir sentido a questões humanas e visa ajudar no processo de tomada de decisões, o rigor científico tem um valor secundário. O que é importante em relação a estas questões, dada a sua natureza essencialmente subjectiva, é a experiência e a sua capacidade de comunicar de uma forma significativa e útil na situação em concreto.

O processo de analisar e interpretar situações humanas, assim como ajudar no processo de tomada de decisões, tem mais a ver com interpretações e significados subjectivos do que com métodos científicos. Por outro lado, todas as actividades ditas científicas têm a sua própria não-racionalidade que, até certo ponto, funda os denominados procedimentos científicos. Isto significa que a pura racionalidade, e o puro espírito científico é um mito (aquilo a que Mary Midgley chama “the myth of mythlessness"). Todas as actividades humanas envolvem um certo nível de a-racionalidade ou de subjectividade que, em certa medida, são condições das actividades ditas científicas e objectivas. Por exemplo, na base da investigação científica estão elementos como a motivação, a ambição, o desejo de poder, a auto-promoção, que não são de todo científicos mas são provavelmente factores que desencadeiam a descoberta e o desenvolvimento científicos.

Um sistema interpretativo e operativo de significados pode ser uma estrutura fundamental na base das actividades humanas, nomeadamente, das denominadas práticas e metodologias científicas. Talvez que alguns dos elementos de não racionalidade, ou flexibilidade, de um sistema interpretativo como a AstroFilosofia sejam condições da sua própria eficácia e adaptabilidade a novas situações de diversos tipos. Provavelmente, até hoje, não tem havido um entendimento profundo do valor e da importância dos sistemas de significados não científicos relativamente às actividades humanas e culturais. Por exemplo, a linguagem é por si própria um sistema não-científico de sinais e de símbolos, que no entanto é fundamental para o pensamento científico. Assim, mesmo os sistemas mais racionalizados têm na sua base elementos duma natureza diferente que são suas condições indispensáveis.

A mente humana tem demasiadas vezes tendência para as enfermidades metafísicas, resquícios do pensamento mágico e das crenças sobrenaturais. Isso observa-se nos astrólogos quando valorizam exageradamente a astrologia. Em geral não lhes basta dizer que a astrologia é um sistema útil para ajudar as pessoas a compreenderem-se, a preverem as suas tendências e a viverem melhor, têm também que afirmar que é uma sabedoria transmitida “pelos mestres” ou uma ciência divina. Ao fazerem este tipo de afirmações falam sobre aquilo de que não podem falar , dizem frases sem congruência, deixam de investir a sua energia no aperfeiçoamento do serviço que podem prestar.

A AstroFilosofia pretende superar as inconsistências teóricas e as crenças sobrenaturais da astrologia e, juntamente com a filosofia, desenvolver um discurso sobre os instintos e sobre o tempo, uma sabedoria de vida que aceita a nossa realidade como seres determinados pela biologia, pelo tempo e pelo nosso espaço cósmico.

Imagens NASA
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