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O QUE É A ASTROFILOSOFIA?
"Quando se fala de astrologia ocorre de imediato, para a maioria das pessoas, os Signos do Zodíaco e as respectivas previsões dos jornais e das revistas. Este é o nível mais simples da utilização do sistema astrológico. A astrologia tem, fundamentalmente, a ver com astros e com a correlação destes com os assuntos humanos e as suas presumíveis manifestações terrestres. O termo “astrologia”, composto pelos étimos “astro” e “logia”, indica que é um discurso sobre os astros. Este “discurso sobre os astros”, este processo de significação que utiliza os astros como referências interpretativas, não pode nem deve ser confundido com a astronomia, que procura estabelecer as leis relativas aos astros (“nomos” significa norma, lei).

Ao contrário da astronomia a astrologia não é nem nunca foi uma ciência, ainda que muitos, mesmo na actualidade, continuem a julgar que sim. Porquê? Porque enquanto a astronomia segue as regras do método científico, a astrologia baseia-se em heranças culturais, em sincretismos, em analogias, interpretações, metáforas, modos de interpretar e de ver as coisas, as pessoas, os acontecimentos e o tempo. Muitas das asserções da astrologia nem sequer são susceptíveis de serem testadas pelo método científico, pelo facto de estarem dependentes do contexto intersubjectivo em que o seu significado é produzido. Ainda assim, do facto de a astrologia não ser científica, não se pode concluir que seja irracional e que não tenha valor e utilidade. Se não tivesse alguma utilidade, se não conseguisse responder a necessidades humanas, certamente que há muito teria desaparecido.

No livro, Astrologia & Filosofia: um discurso sobre o tempo e os instintos, editado pela Esfera do Caos em 2008, apresentei uma nova abordagem, a 4ª Via da Astrologia (sendo a primeira via a que liga a astrologia à ciência, a segunda à religião e a terceira à psicologia) a AstroFilosofia, entendida como uma filosofia prática de orientação e de previsão.

Na primeira parte da obra analisei a relação da astrologia com a ciência, com o cristianismo e com a psicanálise. Aí procurei enunciar as questões fundamentais que historicamente e na actualidade se levantam à astrologia enquanto saber considerado útil por milhões de pessoas mas, em geral, não aceite pelo saber dominante. Na segunda parte, criei e desenvolvi o conceito de AstroFilosofia, uma filosofia de orientação e de previsão, que representa uma reformulação e uma renovação teórica do sistema simbólico, interpretativo e preditivo da antiga Astrologia Grega.

A astrologia, tal como a conhecemos na actualidade, foi uma construção dos gregos, organizou-se como um sincretismo da Filosofia Grega durante o período helenístico. Incorpora em si concepções de Pitágoras sobre o número, a teoria dos quatro elementos de Empédocles, a ideia de um tempo cíclico e da luta entre opostos, tal como se vê em Heraclito. Também as teorias de Platão sobre os céus constituem uma das bases fundamentais da astrologia. Nesse sentido, merece uma referência particular a obra Timeu, considerada por muitos como a “Bíblia” da astrologia ocidental, onde se entende o tempo como o princípio organizador de todas as coisas do mundo material. Igualmente, a cosmologia de Aristóteles – posteriormente o cosmos aristotélico-ptolemaico - e as suas concepções sobre a Física e o Céu, vão constituir o fundamental do sistema de pensamento astrológico, que haveria de ser apresentado como um todo na obra o Tetrabiblos de Ptolomeu, já no século II da era cristã. A AstroFilosofia vem recuperar estas origens e retomar o ideal da Filosofia prática, da sabedoria para a vida .

A AstroFilosofia marca o nascimento da filosofia de orientação e previsão. Ao contrário da Astrologia, que pode ter pretensões científicas ou religiosas, a AstroFilosofia coloca-se ao nível dos meios de análise intersubjectivos, dos sistemas de interpretação operativos. Baseia-se numa hermenêutica filosófica que pretende trazer à luz o significado das experiências e dar-lhes um sentido e uma racionalidade operativa, isto é, que possa ser útil para gerir melhor a vida, para tomar decisões, para desenvolver a liberdade de utilizarmos melhor as nossas capacidades e melhorarmos as nossas fraquezas. A AstroFilosofia não se pretende científica nem se julga uma sabedoria transcendente, não procura demonstrar, antes mostrar e utilizar. Está ao nível dos meios, não dos fins, sem pressupor a existência de dimensões esotéricas ou metafísicas.

A AstroFilosofia também não se reduz à Psicologia porque não tem como objectivo primeiro a cura de desequilíbrios pessoais, não visa tratar doenças ou resolver problemas de natureza psicológica, ainda que possa ser um poderoso instrumento complementar de ajuda. É acima de tudo um mapa possível da realidade de um ser humano e também uma sucessão de mapas do tempo, das probabilidades e das tendências de uma pessoa. Nesse sentido, os seus objectivos são mais abrangentes que os da Psicologia, abarca qualquer domínio potencial da vida de um indivíduo, ajuda-o a reflectir e a equacionar melhor as suas possibilidades e a tomar decisões. É então, principalmente, um instrumento de gestão da vida que está, em vários sentidos, mais próximo da Economia, da Estratégia e da Gestão do que da Psicologia.

Este trabalho iniciou-se em 2002, num tempo em que ainda não tinha sistematizado o conceito de AstroFilosofia. Em que ainda estava num pântano conceptual e teórico. Por um lado não podia reclamar o apoio da Psicologia e via claramente que esta era uma base frágil e insuficiente para a Astrologia. Circunscrever a Astrologia ao domínio da Psicologia é um reducionismo. No meu entender, a Psicologia Individual continua a ser um departamento da Filosofia. Tenho dúvidas que isso possa, ou sequer seja desejável, vir a ser de outro modo. Vão na mesma linha as chamadas “ciências humanas” e as “ciências da educação”: uma mistura de modelos conceptuais, de jogos particulares de linguagem, que têm a pretensão de serem demonstráveis, de estarem próximos das leis da natureza, quando de facto estão mais próximos da literatura e dos mitos. Em última análise, entendo tudo isso como variações, melhores ou menos boas, da Filosofia.

Como exemplo, veja-se o caso da História. Muitos supõem que se trata dum estudo factual, objectivo, daquilo que ocorreu no passado; afinal é um jogo de narrativas, de formas de olhar o passado através dum dado ponto de vista do presente. Muitas vezes com intenções não claramente compreendidas pelo próprio indivíduo que faz a História. É mais interessante ver a História como conjunto de narrativas à luz do presente sobre hipóteses de um passado sempre a reinventar.

Hoje considero ter sido feliz por não ter publicado este livro há uns anos pois, se o tivesse feito, ele padeceria duma inconsistência teórica fundamental e de equívocos não resolvidos. Não é que a astrologia, tal como é praticada pelos astrólogos nas diversas correntes, não possa ser útil e não seja razoavelmente consistente ao nível prático e na ajuda que pode dar às pessoas. Não tenho objecção fundamental a que a astrologia continue a ser uma espécie de “ciência-religião-psicologia”, o que me preocupa é que isso não tenha vindo a constituir-se numa abordagem teoricamente consistente, num sistema útil e generalizado de orientação e previsão que possa ser usado habitualmente e beneficiar qualquer pessoa, sem preconceitos nem demónios desnecessários.

O propósito fundamental desta investigação é mostrar – partindo do caso extraordinário do nascimento simultâneo de dois dos mais importantes homens de letras do século XX português – algumas possibilidades de utilização do sistema interpretativo da AstroFilosofia. "

José Prudêncio (2009) Um Céu e Dois Caminhos - José Saramago e José-Augusto França, p. 17-20
Imagens NASA
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